domingo, 20 de janeiro de 2013

cretcheu

 Nha cretcheu, mon amour, 
 O nosso encontro vai tornar a nossa vida mais bonita por mais trinta anos.
 Pela minha parte, volto mais novo e cheio de força.
 Eu gostava de te oferecer cem mim cigarros, uma dúzia de vestidos daqueles mais modernos, um automóvel, uma casinha de lava que tu tanto querias, um ramalhete de flores de quatro tostões.
 Mas antes de todas as coisas, bebe uma garrafa de vinho do bom, e pensa em mim. 
 Aqui o trabalho nunca pára. Agora somos mais de cem.
 Anteontem, no meu aniversário, foi altura de um longo pensamento para ti.
 A carta que te levaram chegou bem? Não tive resposta tua. Fico à espera.

 Todos os dias, todos os minutos, aprendo umas palavras novas, bonitas, só para nós os dois.
 Mesmo assim, à nossa medida, como um pijama de seda fina.
 Não queres? Só te posso chegar uma carta por mês.
 Ainda sempre nada da tua mão. Fica para a próxima. Às vezes tenho medo de construir essas paredes. Eu com a picareta e o cimento. E tu, com o teu silêncio. 
 Até dói cá ver estas coisas, mas que não queria ver.
 O teu cabelo tão lindo cai-me das mãos como erva seca.
 Às vezes perco as forças e julgo que vou esquecer-me.
 em Juventude em Marcha

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Ham on Rye



It was a joy! Words weren't dull, words were things that could make your mind hum. If you read them and let yourself feel the magic, you could live without pain, with hope, no matter what happened to you. (Bukowski, 1982, p.298)


Ham on Rye é o quarto romance publicado pelo conhecido escritor norte-americano Charles Bukowski (1920-1994). À semelhança de outros, é escrito na primeira pessoa, protagonizado por Henry Chinaski, o alter ego dissimulado do escritor.

Devido a esta característica, a maioria dos seus romances têm um carácter autobiográfico muito presente. Ham on Rye destaca-se, a partir do momento em que a acção recua muito atrás no espaço temporal, remetendo-nos às intensas infância e adolescência de Henry, de tal forma que se torna automática a conclusão de ilações acerca da vida de Bukowski.

Desde a sua dificuldade em tornar-se um ser sociável aos olhos da sociedade, passando pela sua pouca vontade de viver a sua vida, pela discriminação sofrida relativamente ao seu estrato social, até à sua puberdade que o tornou um monstro físico, impedindo-se de sair de casa (este isolamento, que o levou a devorar Oscar Wilde, Tolstói, Dostóievski, Marx, Victor Hugo e muitos outros autores de grande importância no panorama de literatura, despertando este amor que o salvou).

Esta obra é um elogio aos seus leitores aficcionados; os seus leitores feios, porcos e maus, apaixonados pelos seus contextos ordinários, pelas suas cabras de estimação e pelo peso dorido das suas ressacas consecutivas. A verdade é que, faz mais sentido lê-la depois que algum conhecimento anterior da obra e vida do autor ou seja, de alguma ligação parcial com este.

Ham on Rye esclarece. É o tesouro ao esperado depois de um longo, enviesado e involuntário percurso.

A ler.